As Três Vidas do Brasileiro

“We are what we repeatedly do. Excellence, therefore, is not an act, but a habit.”

Somos aquilo que fazemos repetidamente. A excelência, portanto, não é um ato, mas um hábito.

Will Durant

 

15 de março de 2015. Data histórica no Brasil. Muitos cidadãos nas ruas contra a corrupção gigante, macroscópica, escandalosa que avassala um Brasil quebrado e dividido. Aliás, corrupção vem do latim corruptus, que significa “quebrado em pedaços” ou “deteriorado”. Políticos aparecem na TV e, em protesto, a população bate panelas, acende a apaga as luzes de casa e grita “abaixo os corruptos!” Assistir aos panelaços faz lembrar dos caerolazos na Argentina em 2001, que marcaram a renúncia do presidente Fernando de la Rúa. Ou, muitos anos antes no Chile, dos protestos com panelas que mostraram a revolta popular contra o regime do ditador Augusto Pinochet. Também lembro dos panelaços de 2014 na Venezuela, onde foi denunciada mundialmente a escassez de alimentos e produtos básicos no país.

A gente, que mora longe, recebe noticias por amigos, familiares e via midia, e o coração aperta em um misto de emoções, saudades e as perguntas: Será que dessa vez o brasileiro acorda politicamente? Será que o povo esta no caminho certo? Desejo sinceramente que sim, que cada um esteja aprendendo a construir a democracia, a se indignar diante da impunidade e da Grande Corrupção.

Espero que, daqui para a frente, cada um que foi as ruas esteja muito, mas muito disposto mesmo a fazer a sua parte também contra aquela corrupção pequenina, endêmica, corrosiva, quase invisível. Aquela que já faz parte do dia a dia do brasileiro. Aquela que sempre vem com uma desculpa no estilo “sonego porque sonegam” ou “eu faço porque todo mundo faz” ou “só dá pra sobreviver assim”.

Tipo o profissional de saúde que vende recibos falsos para dedução no imposto de renda. Tipo o funcionario publico ou privado que aceita “presente” adiantado e/ou gorjeta para agilizar um atendimento presencial. Tipo o plantonista que faz “esquema” com os colegas para não permanecer na sua unidade o tempo pelo qual foi realmente contratado. Tipo o estudante de classe média/alta que prepara, faz e passa “cola” aos colegas; assim, tudo muito natural. Tipo oferecer ao guarda de transito um “café” ou uma “cerveja” para aliviar a multa. Tipo aquele “gato” de eletricidade ou internet ou TV a cabo puxado em casa ou na empresa. Tipo a empregada doméstica que leva pra casa o iogurte, o rolo de papel toalha ou o sabão em po da patroa. Tipo o dinheiro pedido emprestado àquele parente idoso ou a um amigo, ao qual o inadimplente não tem a minima intenção de restituir, torcendo para que de preferência a divida seja esquecida magicamente… Tipo o médico que faz atestado para academia sem examinar o paciente, ou emite receita azul (= medicação controlada) de cortesia para gente desconhecida, pro amigo do amigo do amigo do paciente. Tipo o motorista de carro que paga taxa mensal ao “flanelinha” da rua, o qual paga sua respectiva “taxa” ao policial da regiao para usar o ponto. Tipo o patrao ou empresa que nao paga os beneficios dos funcionarios. Tipo o juiz que recebe propina por trás das audiencias. Tipo a sindrome do “sabe com quem esta falando?”.  Tipo sonegar na boa o imposto de renda. Tipo bater o ponto do colega. Tipo cobrar X sem recibo e X + Y com recibo. Tipo encontrar um conhecido em uma enorme fila, ficar de papo e passar na frente de todo mundo sem nenhum pudor. Tipo o repasse de “caixinha” para toda a equipe do setor, ou da caixinha proporcional do departamento (20% pra nos, 10% pro supervisor e 8% pro diretor da corporação). Tipo empurrar um produto ao seu cliente, forçando a barra e dizendo que é um otimo negocio. Tipo ficar quieto se o troco veio a mais, e fazer o maior escandalo se o troco veio a menos. Tipo incomodar seus vizinhos com som alto depois da meia noite e ainda achar um absurdo que vieram reclamar. Tipo nao emitir nota fiscal. Tipo falsificar carteirinha de estudante. Tipo jogar os mais variados objetos pela janela do seu apartamento e nao se importar nadinha com quem possa estar ou morar abaixo. Tipo comprar produtos falsificados, DVD ou CD piratas. Tipo usar a maquina de fotocopia da repartição para “xerocar” o trabalho escolar do seu filho. E a criança sabe que o papai pode fazer quantas copias quiser no trabalho. Exemplo não falta.

Gabriel García Márquez declarou uma vez a Gerald Martin: “Todos tenemos tres vidas, una vida pública, una vida privada y una vida secreta.” Não estou a fim de julgar ninguém, nem vasculhar as suas três vidas. Se você ainda acha que essa corrupçãozinha do dia a dia é normal e o problema reside apenas nas instituições e Governo, talvez o caminho seja muito mais longo e demorado do que a gente imagina. E aqui de longe, com o coração bem apertado, vou bater panela pra você.

HBP, March 16, 2015

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2 Comentários em “As Três Vidas do Brasileiro”


  1. Oi querida. Amei seu artigo. Inteligente, claro, atual e verdadeiro. Parabéns!


  2. Bom dia Helena querida,

    simplesmente perfeito.

    E ninguém ousa falar disso. Que bom que vc ousou.

    Lá bem no passado, um dia saindo de ônibus com meu filho pequeno e menos de 6 anos, acomodei-o no banco e falei: quando o ônibus estiver com os bancos mais lotados coloco vc no meu colo para liberar o seu assento. E ele me perguntou a razão disso e expliquei que não havia pago a passagem dele e portanto não seria correto utilizar aquele assento enquanto outros que pagaram ficarem de pé. E ele na sua inocência disse assim: vamos fazer de conta que a sra. pagou e respondi que não podia fazer isso.Que era errado fazer esse de conta.
    E como mãe solteira não foi uma tarefa fácil conjugar as aflições do espirito com as aflições do bolso.

    E até hoje, meu filho no glamour dos seus 19 anos, já trabalhando e cuidando de suas necessidades e portanto se sentindo mais dono de si, ainda ouso dizer o que acho certo e errado no seu comportamento e por vezes de forma contundente. Acabo ouvindo coisas tipo: tudo a sra. quer dar lição de moral. E refuto, digo que: são aprendizados de vida.

    Costumo dizer que educamos um filho para viver em sociedade e o que fizermos será exemplo para ele. As nossas palavras e ações precisam andar de mãos dadas.
    Falta ~princípios~ hoje em dia, e isso nos melhores e mais abastados lares também. Não se restringe a uma questão de falta de educação ( e falo da formalizada), passou a ser de cultura.
    E sei exatamente o que digo.
    Se ensina muito um filho a não roubar e matar, e todas as demais coisas miúdas, e muitas aqui belamente enumeradas, são permitidas porque como as mentirinhas e a invejas brancas, são compreensíveis e perdoáveis.
    E aí esses jovens tornam-se adultos, assim deformados e equivocados, como vemos no nosso Congresso/Política e na Sociedade.
    E a ~religião- (falo da ocidental) que deveria ser um refrigério para a nossa alma cansada, aflita e desnorteada, como nos ensina Jesus:

    ~Vinde a mim todos os que estais cansados de carregar suas pesadas cargas, e Eu vos darei descanso.Tomai vosso lugar em minha canga e aprendei de mim, porque sou amável e humilde de coração, e assim achareis descanso para as vossas almas~

    nos norteando com uma novidade de vida,no pensar e agir, também dá a sua cota quando premia o ~bom comportamento~ com as benções e alimenta os ~separatismos~ de deus.

    Confesso que minha alma visita um momento confuso e bem delicado (quase de desencanto) no tocante a ~esperança~. Preciso recorrer diariamente ao Deus da minha alma para não sucumbir e continuar tentando exalar o seu bom perfume.

    E notadamente é por demais relevante, nesse ~caos de vaidade e aflição de espirito~ inclusive meus, beber de suas águas límpidas e sentir o seu bom perfume aqui no lindo Timilique!

    beijo
    denise senra


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