Mais Casos

Ainda sobre pequenas delícias de se morar na roça, o doce de abóbora e outros assuntos menos e mais relevantes.

When we are not sure, we are alive. 

Graham Greene

1. Morar na roça.

Você vai pagar umas contas em Watertown Charter Township e na estradinha de volta pra casa fica com vontade de comer doce. Obviamente precisa ir ao mercado comprar abóbora.  Eis que no meio da estrada, em frente a uma casinha, surge uma mesa improvisada com abóboras e tomates.

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Um senhor idoso acena da janela, mas não sai de casa. Na mesa do lado de fora, um pequeno cartaz com preços, uma latinha para deixar o dinheiro e sacolas de plástico para embalar a mercadoria.

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  1.  Doce de abóbora.

Um dos primeiros doces que aprendi a fazer. Muito fácil e sempre dá certo com somente esses ingredientes:

  • 1, 5 kg de Abóbora de Pescoço ou Abóbora Seca descascada e cortada em cubos pequenos
  • 1 xícara de açúcar cristal
  • 1 pauzinho de canela
  • 1 xícara de coco ralado fresco
  • Tempo e fogo baixo

Em uma panela grande coloco os cubos de abóbora. Cubro com o açúcar e coloco a canela no meio. Não mexo. Tampo bem e levo ao fogo baixo, ainda sem mexer, até a abóbora começar a se desmanchar e soltar água. Amasso os pedaços de abóbora delicadamente com um garfo e só então mexo para misturar com o açúcar que já deve estar derretido. Deixo a tampa mal fechada desta vez e mantenho em fogo baixo. Quando a calda tiver engrossado (em torno de 40 a 50 minutos), junto o coco e deixo mais 10 minutos – fogo baixo. Espero esfriar completamente antes de guardar na geladeira.

Não encontrei a Abóbora de Pescoço por aqui e usei 2 unidades de Butternut squash da estradinha de Grand Ledge. Para adoçar usei Crystals demerara nature cane sugar. O coco fresco substituí por Bob’s Red Mill Coconut Flake Unsweetened.  Não fica igual ao brasileiro, mas dá para matar a saudade.

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  1.  Momento catártico.

Esse assunto do doce me fez lembrar de uns conhecidos (não amigos, só conhecidos mesmo), aos quais oferecemos um almoço em casa, há mais de 20 anos. Fiz tudo sozinha, com o capricho de dona de casa novinha e pimpona. Quando eu trouxe o doce de abóbora com coco, um deles fez cara de nojinho. Disse que não suportava o doce. E a esposa ainda disse pra tirar o doce da mesa, senão o marido podia vomitar a qualquer momento. “Trauma de infância, voce sabe”.  Não, não sei.  Sei que ninguém é obrigado a gostar de doce de abóbora.  Mas fazer cara de nojinho e dizer que vai vomitar? Tem mais de 40 anos? Ah, vai me desculpar, mas isso pra mim foi uma tremenda falta de educação, falta de amor, falta de tudo. Nesse dia percebi que a química não estava rolando e a amizade não ia vingar. Estão perdoados faz tempo. Mas não são meus amigos, e sinto honestamente que fui poupada de dissabores. Vou falar um pouco sobre esse assunto de quem não tem papas na língua a seguir.

  1.  A franqueza mal habitada.

Contam (já virou lenda mas nunca encontrei a fonte histórica) que Abraham Lincoln, quando presidente dos Estados Unidos, recusou incluir determinado sujeito em seu gabinete porque não havia gostado do rosto dele. Sua explicação: “Todo homem acima de 40 anos é responsável pelo rosto que tem”.

Não estou tão certa de que as pessoas que passaram dos 40 são totalmente responsáveis pelo rosto que tem, mas certamente são responsáveis pela maneira como agem e reagem. Há quem se gabe “Sou totalmente franco, comigo não tem falsidade. Falo tudo o que penso e não tenho papas na língua!”

Nesse caso, só posso dizer que a franqueza é muito mal habitada entre gente sem educação e sem limites, que confunde grosseria com sinceridade.

Aliás, qual a novidade? Um dia achei na biblioteca da Universidade de Michigan um impresso bem antigo chamado “The London Magazine, Or, Gentleman’s Monthly Intelligencer“. Em seu volume 47, pagina 24,  publicado em 1778, o texto (com peculiar grafia) já dizia isso.

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  1.  A conjugação verbal andou meio confusa no meu tempo sabático.

Às vezes me perguntava qual dessas seria a correta. “Sou médica,” “Eu era médica”, “Eu costumava ser médica e voltarei a ser de novo”? Obviamente a confusão acontece se eu considerar que minha participação nesse planeta só pode ser autenticada enquanto eu continuar exercendo a profissão que pratiquei por mais de 20 anos, e de preferência ganhando dinheiro, muito dinheiro com ela. Mas o tempo sabático vai revelando que as motivações primeiras que me levaram a ser médica (ou seja, a compaixão, a vontade de ajudar o próximo, a curiosidade, a criatividade, o impulso em querer aliviar a tristeza ou o sofrimento de alguém) ainda estão, todas, em mim. O amor, a compaixão pelo paradoxo da natureza humana, isso tudo cresceu. Também cresceu a compreensão do papel de Deus em minha existência; ou, mais corretamente, da minha existência dentro dos planos de Deus. Agora, fica mais fácil conjugar o que sou porque não preciso viver das glórias do passado ou de expectativas futuras. Não quero sentir que a vida só aconteceu nos primeiros 30 anos ou 40 anos e o restante ficou somente para reflexão.

Alem disso, desde que perdi uma porção de entes queridos e constatei que o lugar deles jamais seria substituído em minha vida, meu tempo verbal predileto passou a ser o presente do indicativo. “Eu acordo”. “Eu vejo o nascer do sol”. “Eu amo e tenho sido amada”. “Dou tão pouco e recebo tanto mais em troca”. E é claro, “Deus cuida de mim”.

  1. “Deus cuida de mim” .

Virou uma citação clássica lá em casa por conta de um evento verídico. Uma familia frequentava a Igreja Presbiteriana aos Domingos na cidade de São Paulo, Brasil, onde havia uma programação para adultos e uma especial para crianças pequenas. Certa ocasião a lição das crianças tinha sido sobre Daniel, um personagem do Velho Testamento. Segundo a história bíblica, Daniel fora lançado em uma cova cheia de leões famintos após uma conspiração de seus inimigos. Claro que Daniel, o herói confiante em seu Deus, escapa são e salvo, para a alegria da criançada! Depois todo mundo desenhou um leãozinho em uma folha de papel (verdade seja dita,  alguns leões ficaram parecendo mais um cachorro com juba) e a professora completou à mão: “O Senhor cuida de nós”.

Finda a escola dominical era hora de uma mãe atarefada recolher seus 3 pimpolhos (duas garotinhas e o bebê de colo), e levá-los o mais rápido possivel para o almoço em casa com a babá. Depois seguiria para buscar o marido no Banco, que fazia plantão dominical para recolhimento do Imposto de Renda. Tudo cronometrado, as filhas pulando à frente na calçada, o bebê em uma das mãos, a chave do carro na outra mão, em um ombro a bolsa, no outro a sacola de bugigangas do bebê. A mãe colocou o bebê na cadeirinha, a filha menor no banco de trás, cinto de segurança, e agora… epa, então…cadê a outra filha?

Sem que a mãe percebesse, a mais velha já se desgrudara do grupo. A menina tambem não havia notado que os outros tinham ficado para trás. Correu mais um pouco e nao achou nem a mãe e os irmãos. Agora passo a contar somente a versão da garotinha de 6 anos (a mãe, a essa altura do campeonato, ja devia estar para lá de desesperada voltando à igreja e pedindo ajuda aos amigos que ainda estavam por lá para a busca na delegacia, hospitais, etc, a via crucis de quem perde alguém em uma cidade grande).

Do ponto de vista da garotinha, enfrentar a novidade era de uma simplicidade tremenda. Respirou fundo e olhou bem a rua. Caminhou de volta para a avenida principal (à época cheia de buracos gigantes pela construção do Metrô) tentando reconhecer algum caminho. Sim, claro! O ônibus escolar costumava passar por ali durante os dias da semana, descendo a Rua Machado de Assis na volta da escola pra casa. Ela achou que podia fazer o mesmo caminho a pé. De vestido de croche amarelo-gema e o desenho do leão em punho, lá foi ela marchando pra casa.

Reconheceu casas, ruas, reproduzindo todo o caminho do ônibus. Nos cruzamentos obedecia à sinalização recém-aprendida na escola (vermelho = pare, amarelo = atenção, verde = avance) e só atravessava na faixa de pedestres. Começou a sentir fome e um certo cansaço, sem noção do tempo que passava. Queria é chegar rápido em casa, tomar um copo de água e deitar-se no berço do irmãozinho, como recompensa. Se alguém a olhasse com estranheza ou em caso de repentina apreensão, ela abria a figura já toda amassada, olhava o leão e repetia para si mesma: “O Senhor cuida de nós”.

Assim, de rua em rua e passo a passo, duas ou três horas depois chegou a casa, cansadíssima. Empurrou a porta destrancada e disse oi, para espanto da babá que começou a gritar histericamente. Bebeu dois copos de agua, tirou os sapatinhos e foi para o berço, sempre agarrada ao desenho do leão.  Quando abriu os olhos viu rostos familiares chorando e rindo ao seu redor: a mãe, o pai, o avô, vizinho, a empregada, o mundo. Só não entendeu porque tanto exagero, esses adultos, se preocupam à toa, perguntando se estava tudo bem e se algo tinha acontecido. Como assim, acontecido? Não entendia aquela comoção. O que fez simplesmente foi seguir o caminho do ônibus escolar e chegar em casa.

Lágrimas e abraços resolvidos, palmada e bronca colossal do avô (nunca na vida o vira chorando antes), mil telefonemas na casa, amigos chegando e saindo… o susto passou e a aventura ficou registrada no pequeno desenho ultra amarrotado e suado. A mãe até emoldurou o papel, que virou quadrinho exposto na parede. A frase virou jargão de família: “O Senhor cuida de nós” .

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Com o recurso da moderna tecnologia, eis a reprodução do provável trajeto de 40 anos atrás. O Google Maps dá uma rota aproximada de 3.6 km em 44 minutos de caminhada. Imaginando que seja a estimativa para um adulto, para uma crianca de 6 anos de idade deve ter demorado de fato quase três horas.

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Para completar, só quero dizer que essa garotinha de 6 anos é essa que aqui vos escreve.  Desnecessário acrescentar que anos e anos mais tarde, ainda topei com muita gente que me reconhecia “Ah, você era aquela garotinha que fugiu!” sob meus protestos: “Não fugi, apenas fui adiante”.

Ah, esses casos. Os legumes da estrada, o doce de abóbora, as pessoas que entram e saem da nossa vida, a delicadeza que existe ou que inexiste, os insights do ano sabático… tudo isso me faz pensar por quantas estradinhas já andei e quantas vezes me senti perdida no limbo, sem saber o que fazer. E ainda assim meu sentimento predominante é de imensa gratidão. Primeiro por estar a bordo dessa aventura incrível, do privilégio constante chamado vida. E, mais importante, sou grata porque o Senhor cuida de nós, de você, de mim.

HBP, September 29, 2015

Licença Creative Commons

This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

 

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3 Comentários em “Mais Casos”

  1. Eunice Pacitti Says:

    Lindo Tiz! Fico feliz por fazer parte de sua história de vida. Que em meio a todas suas experiências, Lindas historias de uma vida compartilhada com muito amor e cumplicidade, Você é uma pessoa abençoada e Deus sempre cuidará de você “garotinha querida”.

  2. Mara Boettcher Says:

    Parabens, Helena! Obrigada por compartilhar essas historias lindas comigo. bjs, Mara

  3. Helena Says:

    Ah, que linda história!!
    Reconheço nelas a Tiz, tão desprendida, amiga, que nos surpreendente com seu interesse e carinho. Que Deus continue cuidando de você como de fato tem feito e sua vida seja unicamente pra Glória DEle!


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