Expatriados

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Estou escrevendo no início de Outono no hemisfério norte, mais ou menos quando ocorrem minhas primeiras crises anuais de alergia respiratória. Em compensação, a paisagem lá fora anda linda, com todas essas folhas no chão e as árvores exibindo cores espetaculares. Ando de bom humor, afinal a alergia passa e o cenário é maravilhoso.  Mas tem umas coisinhas que às vezes tiram a gente do sério.

Quando você mora fora do seu país natal vez ou outra esbarra em uns tipos frequentes. Tipo o turista e o expatriado. O turista é aquele que só está passeando por estas bandas e se mostra alegremente deslumbrado. Te pede umas dicas, elogia tudo e sai quase borboleteando. Faz lembrar como a vida é curta e boa.

Tem os expatriados. Nesse grupo há, por exemplo, o expatriado resolvido, aquele mora longe da terrinha faz tempo e trabalha, estuda, adaptou-se super bem e toca a vida para a frente. Trocam-se duas ou três frases no máximo e cada um vai para o seu cantinho.  Há também o expatriado amargo, que cultiva ressentimentos deixados para trás e não pára de falar mal do país natal. Mas tudo bem, dá para sair de fininho e deixar o sujeito resmungando. Tem também o mal intencionado, o qual você fareja de longe e desconversa antes mesmo de sorrir. Finalmente tem aquele tipinho desagradável: o expatriado inconveniente, o xereta gratuito. É aquele que lhe aborda com mil perguntas ( ‘há quanto tempo está aqui?’ ‘onde mora?’ ‘trabalha?’ ‘onde?’ ‘quanto ganha?‘) sem sequer ouvir as respostas direito. Dá pouca ou nenhuma informação sobre si – exceto se for a título de comparação – e no final arremata com a a cena do cartão de visitas, ‘ Caso precise de alguma coisa, me procure’.

No inverno retrasado, por exemplo, eu aguardava atendimento na fila dos correios conversando com minha filha. Atrás da gente havia um rapaz que nos interrompeu sem cerimônia, ‘São brasileiras, né? Nossa, o que vocês estão fazendo aqui?’ Após se certificar de que não éramos ilegais e que morávamos ‘aqui’ há um par de anos, informou que dirigia um negócio local e entregou um cartão de visitas, ‘Em caso de vocês precisarem de algo…’

Pois não sei se sou premiada ou é carma mesmo, mas nesse primeiro mês outonal sou logo encontrada pelo tipo inconveniente. Desta vez, uma expatriada.  Estou em um restaurante e atendo ao celular. Sentada na mesa ao lado, certa senhora identifica que estou conversando em português e joga a isca em voz alta, ‘Parece que ouço algum brasileiro falando …’

Educadamente me viro para ver quem fala. A pessoa não se apresenta, não diz seu nome nem pergunta o meu, boa tarde, nada. Vai direto às perguntas, lembrando mais uma entrevista de emprego que uma conversa civilizada entre compatriotas. Já ataca: ‘Faz tempo que você está aqui?’ ‘Está só ou com familia?’,  ‘Seu cônjuge é brasileiro ou americano?’, ‘Onde vocês trabalham?’, ‘Onde moram?’

Pulo as perguntas e tergiverso: ‘Moro nas imediações…’  A pessoa faz uma careta e insiste, ‘Especificamente, ONDE, em que RUA você mora?’

Agora não sei se acho engraçado ou fico constrangida. Ninguem normal da seu endereco para um desconhecido. A pessoa não fala nada de si, exceto para comentar que qualquer um de ‘nós’, expatriados, ja deveria estar ha muito tempo naturalizado. Bem, confesso que hoje meu humor nao esta dos melhores. Primeiro porque meus sintomas de alergia estão um pouco exacerbados e eu, menos tolerante. Segundo, porque minha memória fotográfico-auditiva ainda está em boa forma.  Sim, sou capaz de reconhecer perfertamente esse rosto, essa careta e a atitude pouco delicada.  Acredite.  Já vi essa pessoa antes em circunstâncias não muito diferentes.

Sim, há 4 ou 5 anos. Estávamos, meu esposo e eu, em uma livraria (ou café?), conversando amenidades. A pessoa fizera a abordagem padrão “Acho que ouço alguém falando em português…” e olhou de esguelha, aguardando nossa reação.  Depois fez as mesmas perguntas, espantou-se de que nunca tivesse nos visto por estas bandas e entregou um cartão de visitas com o nome completo.  A memória fotográfica vai reconstruindo o cartão. Consigo ver as palavras e chego a ler o nome da fulana, fulana de … tal!  Para todos os fins, vou chamá-la ficticiamente de Giovana.

Sei seu nome porque lembro do cartão entregue há 5 anos. Em compensação, a pessoa nem imagina qual seja o meu, mas isso agora é um pormenor.  Pelo visto esqueceu-se de tudo o mais o que lhe havia dito naquela ocasiao. E olha que não foram poucas as perguntas: onde morávamos, há quanto tempo estávamos fora do Brasil, nossas profissões, filhos, familia, etc, etc. 

Desta vez decido poupá-la de nova e infrutífera entrevista. Para que entabular uma segunda e exaustiva conversa se tudo isso vai dar em nada?

Sou honesta e digo suavemente ‘Sabe, seu rosto realmente me é familiar e acredito que já tenhamos conversado alguma vez, talvez há poucos anos’. E mando: ‘Não, por favor não me diga seu nome… daqui a pouquinho lembrarei. ‘

Para minha surpresa, cessa-se a metralhadora de perguntas. A brasileira sossega, provavelmente duvidando do que eu realmente me lembre de alguma coisa, quanto mais seu nome. Ela murmura que também pareço familiar mas consigo um tempo até terminar o almoço.

Hora de ir. Antes disso cumprirei minha promessa, dizer seu nome. Aliás, nome e sobrenome. Resolvo não assustá-la com minha prodigiosa memória fotografica e finjo leve incerteza. Ao invés de simplesmente dizer que se chama Giovana, penso em um outro que soe parecido, que comece com Gi. Gisela. Gina. Gertrudes. Gioconda.

Levanto-me, estendo a mão e me despeço,  ‘Bem, tenha um ótimo dia.  Eu disse que ia me lembrar de seu nome mas ainda não estou 100% certa. Você deve ser Giovana ou Gioconda, não é?’

O semblante empalidece e ela responde perplexa, ‘Sim, Giovana é meu nome. E Gioconda é minha mãe. Mas … como você sabe?’

O nome da mãe? Esse eu não sabia mesmo, inventei.  Caminho até a saída do estabelecimento ciente de que estou sendo seguida por um par de olhos ultra arregalados. Sabe como é, como se diz lá na terrinha, tem vezes que você atira no que vê e acerta no que não vê.

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Licença Creative Commons

This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

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4 Comentários em “Expatriados”

  1. ana Says:

    Ela está se perguntando até agora se vc é paranormal!hehehehe

  2. Mecenas Says:

    Como sempre Joia. Tava com saudades dos seus escritos. Mecenas

  3. Isabel Says:

    Sei muito bem o que é isso… também moro nos US e fujo dos “expatriados” como o diabo da cruz: é sempre a mesma ladainha, somos crivados de perguntas incovenientes e inadmissíveis. Somos ambos brasileiros… mas e daí? Brasileiro tem em qualquer lugar. Nem conheço a pessoa e isso me incomoda, primeiro porque nunca pergunto absolutamente nada da vida de ninguém (mesmo de pessoas que conheço) e segundo porque sou uma pessoa reservada e não quero dividir minha vida pessoal somente porque uma pessoa desconhecida insiste nisso. Logo que cheguei aqui, uma conterrânea conseguiu estragar um passeio romântico que eu estava fazendo com meu marido porque ficou mais de 2 horas nos crivando de perguntas, à beira de um lago, num dos nossos raros momentos de lazer. Mas a pior estória que conheço foi a de um brasileiro perguntar ao meu irmão, que vive há 25 anos em Londres: “Ouvi você conversando, sei que é brasileiro – olha, vou ficar 15 dias aqui e meu hotel está muito caro – posso ficar em sua casa…?”

    Obrigada por seu texto tão verdadeiro.


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