Não Visito Túmulos.

Foto: 4-H Children's Garden (acervo pessoal)

(Foto: 4-H Children’s Garden – acervo pessoal)

 

Dedico esse texto a Silvana, irmã de coração, e aos meus sobrinhos Leo e Thi, que souberam transformar a tragédia em um vôo de superação e alegria. 

“Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.”

(Paulo Mendes Campos)

Vou entrar de supetão no assunto, como diria Quintana. Nunca curti o farfalhar do culto a morte, Finados, as flores murchas no cemitério, aquela coisa tipo festa mexicana de Dia de Los Muertos, o comércio em torno disso, a atitude sombria circulante, e que mais me parece uma auto-comiseração enrustida. Eu acho até falta de respeito! Falta de respeito aos que se foram é cultuar a tristeza, é cultuar a autopiedade de quem ficou, o martirio da culpa do que não foi dito ou feito.

Também não visito túmulos. Pra mim o corpo inerte é uma casca e eu nunca consigo associar com a pessoa (a real pessoa) que partiu. Feito casca de cigarra que fica grudada nas árvores. A cigarra já cresceu, já cantou e já se mandou dali faz muito tempo, voando… A casca? Pois alguém realmente se importa com o destino da casca? Vou lhe contar algo só para ilustrar meu sentimento.

Outro dia achei no mercado um pacotinho de salame italiano e trouxe pra casa. Mario, meu marido, até estranhou. Logo eu, com mania de coisas saudáveis, ia comer salame? Mas naquele dia senti vontade, e, mais que vontade, senti uma imensa ternura e saudades do meu pai, já falecido faz tempo. Ele adorava esse tipo de tranqueiras, salames, mortadelas, presuntos, capocollo, sardelas, queijos salgados e aromáticos, obviamente tudo reprovado por minha zelosa mamãe por conta dos problemas de saúde dele. Pois papai comia mesmo, sem culpas e ainda era o terror (ou a alegria) dos cardiologistas: acima do peso, hipertenso, valvulopata, coronariopata, nefropata, e bota “pata” nisso. 

Mas voltando ao salame. Antes do jantar  abrimos um vinho e uns queijos, e falei um tempão do meu pai, de coisas engraçadas que ele dizia, de suas manias e aforismos. Mario também  lembrou-se do pai dele, quando a familia ainda morava perto do aeroporto de Congonhas. Uma vez estavam empinando pipa juntos e o Mario, com 6 anos de idade, teve um medo súbito de que os aviões esbarrassem na pipa, já lá no alto. E o pai dele retornou a pipa a terra em segundos, graças a um engenhoso arranjo onde atrelara o fio da pipa ao maquinário de uma enceradeira. Que talento!

Lá pelas tantas peguei uma fatia do salame e exclamei: “Oh pai, esse salame aqui é em sua homenagem, porque eu sei que você adorava isso!” E nós dois, naquele instante, ficamos tão felizes, tão bobos, tão rejuvenescidos pensando na sorte, na benção, no privilégio em termos convivido e amado nossos pais.

Claro que a gente tem saudade de quem partiu. Há de se sentir falta da voz, do cheiro, do abraço. Há de se chorar. Mas nada disso justifica um sentimento de desesperança, e nada disso ocupa mais espaço que a alegria da memória que eles deixaram.

Faça assim. Celebre a vida hoje. E amanhã, e depois. Faça coisas gostosas, permita-se um agrado, use uma camiseta furada, dê risadas com quem ainda está por aqui, ande descalço, tome um picolé, sinta o ventinho bagunçar seu cabelo, coma um pedaço de salame. Não visite túmulos, visite um jardim, de preferência com excesso de flores. Vai por mim. Honrar de verdade a memória de alguém deveria ser com imensa leveza, com prazer, e amor.

HBP, Nov 2nd, 2016
 

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One Comment em “Não Visito Túmulos.”

  1. Silvana Féres Says:

    Lindo texto! Ontem, finados… hoje, realidade dos que ainda não foram…
    Clareza de sentimento e expressão!

    Obrigada irmã de coração! E opção!


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