Os Chatos Prediletos

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“Há 2 espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e os amigos, que são os nossos chatos prediletos.” 

M. Q.

Ontem (14 de novembro de 2016) a Martha Medeiros postou um texto lindo que começa assim:

“Amizades passam por fases, como os amores. Fase do grude, fase do silêncio, fase da demolição, fase da reconstrução. Tenho uma amigona com a qual eu andava na fase grude, só que ela se apaixonou e saiu de cena com o novo namorado. Hoje nós duas estamos na fase “qual é mesmo o teu nome?”, mas ela me mandou um whatsapp dia desses dizendo que sente minha falta e que um dia irá “voltar”, como se estivesse num paraíso perdido. Ora, ela está – o que é uma benção. O que me comoveu foi a sua definição do momento atual: “A felicidade anda me desorganizando”. Ao final, ela conclui que é “o êxtase, esse adorável corruptor da nossa agenda”.

As palavras caíram feito luva pra mim. Também ando desorganizada. Quero adicionar que não é só a felicidade que me desorganiza, mas a tristeza também. Ou a empatia. Ou testemunhar ao vivo aquela felicidade, ou melhor seria dizer, aquele contentamento, que surge muito devagarinho na alma que começa a cicatrizar após ser atropelada pela tragédia. Pois esse ano o êxtase e a tragédia chegaram meio juntos, mexendo de novo com minhas estruturas, fazendo rever crenças, reforçar laços, tornando-me ainda mais cuidadosa e seletiva com o uso do tempo. Em meio a desorganização a gente continua tocando a vida, cancela compromissos, negligencia os ritos sociais, se recolhe e, com um pouco de sorte, aprende.

Aprende que, assim como cada amizade passa por fases, a amizade também passa por testes.

Tem o teste da distância, o teste do tempo, o teste das diferenças pessoais, o teste da convivência intensiva (quem já frequentou acampamentos de verão na juventude sabe do que estou falando). Acho que a maioria de nós já teve a oportunidade de rever amigos e conhecidos de décadas passadas. E o novo encontro pode ser a chance de recomeçar a amizade, ou encerrá-la de vez. Porque a gente muda, os outros mudam, e as histórias e afinidades não necessariamente coincidirão. Às vezes isso acontece de forma curiosa.

Por exemplo, quando alguém sai de cena (tanto faz se em um paraíso perdido ou em um inferno pessoal), o amigo de verdade costuma ir atrás, escreve, telefona, manda sinal de fumaça ou o que necessário for. Um bom amigo também pode optar pelo silêncio – silêncio sereno – na esperança de que tudo esteja bem. No entanto, há quem prefira ir direto para a especulação. No ambiente da detração, quem fala mal do ausente pensa estabelecer uma aliança com seu interlocutor. Mas não há empatia, só curiosidade rasa. Nesse caso seria melhor repensar a amizade.

Lembro com saudades da fase de disputas e briguinhas que minha irmã e eu tivemos em nossa inocente pré-adolescência. A melhor forma de argumentar, ou a pior de ofender, era chamarmos uma à outra de chata! E a gente se adorava. E mais alguns minutinhos já estávamos rindo e brincando de novo, cada uma com sua chata predileta.

A arte de conviver não deveria ser baseada em critérios de entrevista de emprego, como idade, opção religiosa ou política. A reciprocidade, muito contabilizada, às vezes nem faz diferença. Como se tudo fosse matematicamente equacionado nessa vida. A química que funciona é aquela que junta a hora, o dia e a pessoa certa.

(Vale lembrar que é bom ser amigo de si mesmo. O que significa que, de tanto em tanto, alguém queira usufruir da própria companhia por longas horas, dias, quiçá meses…)

Amigo é uma espécie de porção diária da tolerância que carecemos. É um bálsamo (ou merthiolate) em nossas feridas. Em suma, amigo é quem ainda nos inspira, e (arremato com F. Sabino) “… sabe fazer da queda um passo de dança; do medo uma escada; do sonho uma ponte; da procura um encontro.”

HBP, Nov 15, 2016

Licença Creative Commons

This work by Helena Beatriz Pacitti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

 

 

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6 Comentários em “Os Chatos Prediletos”

  1. Silvana Féres Says:

    Estou desorganizada! Mescla de sentimentos! Ainda assim, viva!

  2. cleusa wegmuller Says:

    Bom dia menina querida, seu lindo texto me fez lembrar de coisas tão boas e agradecer a Deus por ter podido vivê-las. Também me fez lembrar que não respondi sua mensagem no face ….

    Tem sido um ano dificil, cansativo, mas o Senhor tem propósitos acima de nossa compreensão, não é?

    Sou “cobrada” constantemente por não ter zap/zap , mas só de pensar naquele “tin,tin,tin” o tempo todo ja fico cansaaaaaaaaaaaadaaaaaa…..

    No face faço parte de um único grupo, minhas amigas de magistério. Conseguimos nos reencontrar no ano passado comemorando 50 anos de formatura. Éramos 34 e conseguimos 29. Quando hoje li seu texto fiquei muito emocionada pois reencontrando minha “adolescência” (tivemos que nos identificar, claro rsrsr) foi exatamente o sentimento que tivemos. Então, graças a modernidade, podemos manter esse vínculo.

    Gostaria muito de enviar seu texto para elas, posso?

    Quando vier por aqui, ligue pra nós, por favor, vamos tentar nos ver.

    Sou muito grata a Deus por ter pessoas como você em minha vida.

    Abração muito apertado com muito carinho.

    CLEUSA WEGMÜLLER

    • timilique Says:

      Cleusa, como voce é linda! Pode compartilhar com quem quiser; o blog é público. Afinal, a Tia Tiz só existe porque pessoas especiais como você e sua família marcaram minha vida. Beijoca!


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